Leal da Câmara

 
Este artista foi um Mestre!... Quando alguém tem um trabalho de talento e génio, ganha o respeito dos seus colegas de profissão e dos seus admiradores. Torna-se, assim, um Mestre! Assim aconteceu com Leal da Câmara que teve um percurso artístico muito importante: Portugal, Espanha, França e novamente Portugal! Conhece aqui a vida deste artista, que foi pintor, caricaturista, desenhador de mobiliário e muitas mais coisas! Ah! E um defensor da República!
Image

A vida do Mestre

 
l_0000002-bd1.jpg
l_0000002-bd2.jpg

... Leal da Câmara participou numa exposição em Paris com um dos maiores pintores de sempre chamado Pablo Picasso?

Quando isso aconteceu, no princípio do século XX, Picasso ainda era um jovem artista e Leal da Câmara, embora ainda fosse novo, já tinha experiência enquanto caricaturista nas melhores revistas de Portugal, Espanha e França.

Vamos descobrir mais em família, lendo em conjunto

Vamos conhecer a vida de Mestre Leal da Câmara?

A vida

Foi no dia 30 de Novembro de 1876, em Pangim (Nova Goa, Índia Portuguesa), que nasceu Tomás Júlio Leal da Câmara.

Embora órfão de pai apenas desde 1895 (com 19 anos de idade), é junto da mãe – D. Emília Augusta Leal – que o jovem se formará, extremamente ligado a esta e poupado pela mesma a todo o tipo de dissabores.

Tal educação, contudo, não fora suficiente para o ‘amolecer’, pois demonstra, desde tenra idade, um ser insubmisso e indócil, mesmo contestatário e possuidor de ideias novas, pelas quais se bate com denodo.
Já em Lisboa, e logo após a sua curta passagem pelo Curso Superior de Veterinária, em 1896, Leal da Câmara “(...) desertava para a vida de arte e boémia, que tal era o ofício de desenhador e caricaturista na velha Lisboa mole e patriarcal, à qual começava a arrepelar a epiderme cascuda de conformismo a furuncolose política anti-dinástica. (...) Era uma bandeira que aparecia pela primeira vez a defraldar nos ares pátrios um ideal cheio de promessas, um abanão à sornice lusitana (...)” [in Aquilino RIBEIRO, 1981, Leal da Câmara. Vida e Obra, edição dirigida artisticamente por Abel Manta e publicada pelos Serviços Municipais de Turismo da Câmara Municipal Sintra, a partir da edição de 1951, Sintra, p. 10].

Esta opção, acrescida da convicção em ideais diferentes, fará com que nada, nem ninguém, seja poupado ao seu traço de genial e sarcástico caricaturista. A acidez que imprime nas suas obras e as suas simpatias pelo Republicanismo valer-lhe-ão longos anos de exílio, primeiro em Madrid, e, depois, em Paris.

A capital espanhola foi-lhe, no princípio, algo hostil. Muito perto da pátria lusa e da Lisboa “corrupta e pacata”, Madrid não lhe chegará a proporcionar grande realização. Será Paris, aonde chega em 1900, ano em que decorria a grande Exposição Universal, que lhe trará reconhecimento e glória. Aqui viverá, consecutivamente, durante cerca de 11 anos, trabalhando em muitos jornais e revistas parisienses (e francesas), mas não perdendo, todavia, o contacto, não só com outros exilados seus conterrâneos, como com Portugal.

Em 1911, já depois de implantada a República Portuguesa, a 5 de Outubro do ano anterior, Leal da Câmara regressa a Lisboa, passando a colaborar em vários periódicos. Sucedem-se as exposições de mobiliário e de pintura, tal como as conferências dedicadas a temas diversos (Arte, Pintura, Publicidade, Caricatura, Desenho).
A tão almejada República, ou melhor, as acções dos seus intervenientes, acabam por desapontar o artista, levando-o a partir de novo para França, de onde, em 1915 – e motivado pela I Guerra Mundial – regressa definitivamente a Portugal.

Quatro anos depois, ingressa no Magistério Industrial, nas Escolas Infante D. Henrique e Faria de Guimarães, ambas no Porto.
Mais tarde, por volta de 1920, Leal transfere-se para Lisboa, aceitando um lugar de professor na Escola de Fonseca Benevides. Fixa residência na capital e casa, nesse mesmo ano, com Júlia da Conceição Azevedo, dilecta colaboradora da escritora Ana de Castro Osório.

Data de 1923 a aquisição de um antigo casal saloio sito na Rinchôa, para onde se mudará o casal sete anos após a sua compra, passando a levar, desde esse então, e de certo modo, uma vida mais ‘sossegada’ e ‘contemplativa’.
Como professor, torna-se metodólogo, revolucionando o ensino feminino entre nós. Às suas ideias, mais arrojadas, mais modernas e mais consentâneas com a modernidade e com a lucidez didáctica, pedagógica e social que por toda a Europa
se assiste, muitos dos seus pares e superiores hierárquicos se acabarão, com o tempo, por render.

Leal da Câmara aposenta-se em 1946, por limite de idade, deixando a sua vida de professor, entre homenagens e condecorações, e perante a unanimidade do reconhecimento público da sua obra neste campo.

No ‘Estado Livre da Rinchôa’, autêntico contraponto à cidade (a localidade era então verdadeiramente um simples lugar), viverá o Mestre entre 1930 e 1948, ano da sua morte, dedicando-se, durante todo esse tempo, sobretudo, à fixação pictórica dos costumes saloios que directamente observa.

Ficará para sempre o seu humanismo, os seus ideais, a sua dedicação ao ensino e a sua conduta exemplar como cidadão perpetuadas nos inúmeros textos, referências e obras que lhe foram (e ainda são) dedicadas, tal como na acção científico-museológica que diariamente empreende a Casa-Museu de Leal da Câmara.

Obra artística

Mestre Leal da Câmara produziu uma obra vasta. Temos conhecimento da existência de desenhos seus datados de 1887 e 1888, então com 11 e 12 anos, nos quais se denota já uma grande aptidão e gosto.

Será a caricatura política, porém, que lhe ocupará mais tempo de trabalho, numa primeira fase, que poderemos balizar entre 1887 e 1898, altura em que parte exilado para Espanha. De cariz subversivo, impiedoso e acutilante, os desenhos do jovem Câmara desde logo enfurecem as autoridades
e a ordem vigente. Canaliza as atenções e todo o seu entusiasmo de republicano contra o poder régio, contra os políticos e contra a acção política concreta, elegendo a figura do Rei D. Carlos I como alvo e símbolo do regime e do ‘estado de coisas’ que pretende ver mudados. É nessa altura que saem a público as suas famosas colaborações n’ Os Ridículos, na Marselhesa, n’ A Marselheza e n’ A Corja, a par das ilustrações de várias obras infantis de Ana de Castro Osório.

Pode dizer-se, de certo modo, que foi em Madrid que Leal da Câmara iniciou o seu período de elaboração de retratos tipo portrait-charge, fixando, essencialmente, personalidades dos meios artísticos e literários, como, ainda, alguns políticos conhecidos. Esta faceta perdurará durante os seus primeiros anos de Paris, onde terão larga repercussão os retratos (e frisos) de soberanos publicados na revista L’ Assiette au Beurre.

O exílio espanhol do caricaturista resume-se a um período de apenas quase três anos, pois era Paris a verdadeira cidade cosmopolita da Europa e, por isso, destino privilegiado dos artistas e dos poetas, a meta final dos espíritos verdadeiramente livres e independentes. Para além disso, a França era já uma República bem implantada e consistia um país liberal e democrático, onde todos os intelectuais com talento tinham um lugar. A este propósito refere-se Aquilino Ribeiro quando diz: “Contam-se pelos dedos os emigrados ilustres, que mercê de talento ou indústria, viveram de actividade própria, sem o socorro das patacas lusitanas. São excepções, não esporádicas, muito embora.
Dum sabemos nós que tendo, por assim dizer, cortado o cordão umbilical com a terra pátria, existia em Paris, gordo, farto, satisfeito e forte como rei de armas, Leal da Câmara.” (in Por Obra e Graça, 1940, Lisboa, p. 93).
Expõe em galerias (‘Weil’, ‘Montmartre’), convive com muitas personalidades (Pablo Picasso, Paco Sancha, Abel Faivre, Caran d’ Ache, Blasco Ibañez, Gottob, Jacques Villon, Rouveyre Willete, Collette, Trotsky, Clémenceau, entre muitos outros) e publica trabalhos seus no Rire, Le Caricature, L’ Indiscret, Le Cri de Paris, La Vie Pour Rire, Frou-Frou, Sans-Gêne, Le Diable, etc., conhecendo, durante a sua estada na capital francesa, a internacionalização
e o reconhecimento geral da sua obra.

É durante este período que se instaura o regime republicano em Portugal e, de certa forma, termina aqui o seu exílio. Deixa de haver o motivo (álibi) pelo qual se ausentara e regressa a Lisboa, não encontrando ainda um país ‘novo’ ou ‘diferente’, embora a pátria lusa vivesse já, é certo, uma profunda convulsão.

Em Portugal, também foram reconhecidos, de algum modo, embora incipientemente, o seu vasto trabalho e o seu inegável mérito.

Sucedem-se exposições e homenagens, mas Leal cedo se desilude e não se ‘enquadra’ no novo regime. Não luta por um ‘lugar’, nem aceita entrar no jogo das nomeações e vê-se obrigado a voltar para Paris, onde permanecerá até 1915, altura em que, com a Europa mergulhada numa guerra feroz, abandona a capital francesa e resolve retornar à cidade da foz do Tejo.

A partir de 1919, Mestre Leal da Câmara reparte o seu trabalho de caricaturista com o de professor, remontando a este período as participações na Seara Nova, a concepção da série ‘Pierrots’ e de inúmeras ilustrações para livros, revistas e jornais da época.

Depois da sua fixação na Rinchôa, em 1930, a sua actividade de ‘repórter’ caricaturista vai declinando, para, em seu lugar, se implantar a faceta de artista essencialmente voltado para a fixação do bucolismo de uma vivência pacata e rural – atento aos costumes e aos gestos característicos da vida simples –, dedicando-se, assim, e até à sua morte, ao registo da vida e do modo de ser das populações autóctones – Saloios.
Texto retirado do Roteiro da Casa-Museu de Leal da Câmara, obra de Élvio Melim de Sousa e Rita Maia Gomes (2005)