Percurso Histórico

O velho e sóbrio casal erigido, ao que se julga, nos finais do século XVII sobre terrenos pertencentes à família Pombal, o qual teria, segundo parece, uma utilidade de posto de muda de cavalos entre as Quintas de Oeiras e da Granja do Marquês (Terrugem, Sintra) – e que perdura por todo o evo seguinte, conhecendo ainda, nesse devir, a função de hospital de campanha para as tropas portuguesas durante as Invasões Francesas –, é descoberto por Leal da Câmara por volta de 1923, ano em que o adquire em hasta pública.

A construção rude e saloia que o Mestre encontra é alvo de obras parciais de adaptação, não lhe sendo, no entanto, alterada, sobremaneira, a sua traça primitiva e simples.

Constituída por dois pisos e com um outro corpo de duas águas a si adossado, o edifício é, de novo intervencionado em 1945, sendo então ampliado com a edificação de um grande salão para exposições, bem como de uma sala de trabalho, hoje comummente designada por Ateliê e Sala Multiusos.

Somente a partir de 16 de setembro de 1945 se poderá falar em espaço museológico na sua verdadeira aceção técnica. E isto porque Leal abre-o ao público e concebe uma exposição permanente, para a qual seleciona alguns dos seus próprios trabalhos e passa a receber, desde essa altura, os amigos, as alunas e demais curiosos no novo espaço.

Paralelamente, todo o ‘complexo’ da Rinchoa – Casa de Habitação, Ateliê, Jardins e Salas do corpo situado a Oeste – conhece uma atividade nova, a de espaço visitável e franqueado a (quase) ‘todos’.

Através da análise de documentos fotográficos existentes em arquivo, depreende-se que o Museu possuía (e ora ainda possui) uma compartimentação sinuosa, seguindo uma sequência expositiva clássica e monótona. As paredes encontravam-se quase totalmente preenchidas com trabalhos do Mestre, desde os tetos até aos rodapés, no intuito de se expor o máximo possível, o que, como é óbvio, dificultava uma leitura museológica correta, ou, pelo menos, aceitável, das peças que se pretendia mostrar.

Assim se manterá a Casa-Museu de Leal da Câmara entre 1945 e 1965, ano em que, por doação (e morte) de D. Júlia de Azevedo, todo o recinto passa definitivamente para a posse e tutela da Câmara Municipal de Sintra, ficando, desse modo, concluído, todo um longo processo e desejo que motivou o próprio Artista durante parte da sua vida, mas, sobretudo, a sua mulher, após a morte daquele em 1948 – a de assegurar a constituição, muito perto das Mercês, de um local digno que pudesse perpetuar a memória humanista e a obra artística de um dos maiores Mestres portugueses, o qual foi inaugurado solenemente no dia 2 de junho de 1957.

Entre o espólio que então passa para o património da Edilidade, contam-se a obra gráfica (croquis, guaches, aguarelas, carvões, óleos, desenhos, litografias e gravuras), as quais abrangem um intervalo cronológico localizado entre os finais do século XIX e os últimos anos da década de 1940, a par de todo o recheio da casa (mobiliário, cerâmicas, tecidos, madeiras, vidros, metais e azulejos) e da documentação pessoal do Mestre (fotografias, fichas de aulas, documentos de identificação, correspondência e textos de conferências).

Nos anos subsequentes à mudança de entidade tutelar do complexo, verificou-se a realização de constantes obras de beneficiação, se bem que sempre de pequena monta. Contudo, em 1976, por ocasião do I Centenário do Nascimento de Leal da Câmara, é nomeada uma comissão encarregue das comemorações do mesmo, a qual reivindicará profundas obras gerais e uma capaz e visível remodelação museológica dos interiores.

Na impossibilidade de concretização das tão necessárias obras integrais, optou-se por colmatar apenas algumas lacunas infraestruturais, dando-se ênfase à intervenção estética interior. Fazem-se, então, substituições de quadros e móveis, aligeiram-se as paredes e despejam-se os armários, a fim de poder ser fornecido aos espaços uma atmosfera menos pesada e de mais fácil interpretação, muito embora nunca perdessem as Salas, na totalidade, o seu aspeto anterior.

Refira-se que, de certa forma, é esta última conceção museal que chega até nós, ou melhor, até 1986, altura em que se encerra todo o complexo, por já não apresentar garantias de segurança aos visitantes, e para, sobre o mesmo, incidir um restauro profundo e completo, o qual teve início no ano de 1991.

Reaberta a público simbolicamente no dia 5 de outubro de 1993, a Casa-Museu de Leal da Câmara consiste, hoje, num espaço de lazer e educacional franqueado a todos e museologicamente correto, um verdadeiro polo cultural de características ímpares na área saloia em que se insere.

A 21 de Julho de 2003, por ocasião da Homenagem a Leal da Câmara no 55.º Aniversário da sua Morte, foi inaugurado o Núcleo dos Saloios da Casa-Museu (Polo Museológico), instalado em antigo edifício escolar sito não muito longe, e que se tornara, entretanto, obsoleto, para lá sendo transferidas as coleções saloias da unidade, para, sobre as mesmas, incidir um maior destaque.