Monserrate

O castelinho neogótico de De Visme: o primeiro ensaio da arquitectura romântica em Sintra

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Em 1789, D. Francisca Xavier Mello e Castro arrendou a propriedade de Monserrate a Gerard De Visme (1726-1797), um inglês de origem aristocrática, que era próximo de Pombal e tido como um dos “mais sólidos negociantes de Lisboa”, detentor dos monopólios dos diamantes e do comércio do pau-brasil, com a obrigação de reerguer, a seu gosto, a casa ali existente arruinada pelo terramoto de 1755 e com permissão para oficinas, cavalariças e estábulos. De Visme, influenciado pelas tendências então em voga na sua terra natal, mandou edificar um pavilhão neogótico – mas revelando, igualmente, apontamentos classicistas – de que se desconhece o tracista, isto no contexto do primeiro revivalismo inglês enquanto, entre nós, a corrente neoclássica era ainda dominante com notável exemplo em Seteais, e delineou um programa paisagístico intimamente ligado à filosofia da natureza, esboçando, assim, um parque botânico para fruição estética. 

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Em 1793, pelo menos os exteriores da sua casa de verão, em Monserrate, estavam concluídos, como, aliás, revelam duas gravuras publicadas por Wells, sobre desenhos de Baker, que De Visme terá mandado executar aquando da visita do 2.º Duque de Northumberland, como aliás sugeriu a historiadora da arte Maria João Neto. Entretanto, quando decorriam ainda os trabalhos em Monserrate, Gerard De Visme, por razões ainda não esclarecidas, deixou Portugal, tendo-se fixado, definitivamente, em Inglaterra.

Foi, então, que William Beckford (1760-1844), aquando da sua segunda estadia em Sintra (anteriormente habitara o palácio do Ramalhão que lhe foi cedido por Street Arriaga), se tornou subarrendatário de Monserrate, e ali residiu entre 1793 e 1794, tendo concluído os trabalhos no palacete, cuja estética não era, à altura, consensual e empenhou-se na consolidação dos jardins, tendo para o efeito, e segundo Francisco Costa, trazido um carpinteiro de Falmouth. Beckford fez igualmente melhoramentos nos jardins, como a cascata, o Arco de Vathek e o falso Cromeleque.

 

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Em 1808, William Beckford – o mais profícuo escritor do 1.º Romantismo em Sintra – desistiu do arrendamento de Monserrate que, desde a sua partida, ficou ao abandono e foi nesse estado que Lord Byron encontrou a casa e, a propósito do desolador cenário, escreveu no seu Childe Harold’s Pilgrimage:

Aqui moraste, e aqui sonhaste ser feliz,

Vendo ao longe a montanha: a beleza imutável.

Agora, este local parece amaldiçoado:

Teu palácio está só como tu próprio és só.

Um matagal enorme a custo dá passagem

Às salas sem ninguém, com seus portais abertos:

Aqui, mais uma vez, se aprende meditando,

Como são frágeis sempre os luxos deste mundo,

Que o tempo, em seu caudal, arrasta para o fundo.

Já, depois da visita de Byron, já em 1821, Mariana Baillie, uma viajante inglesa, que lamentou o estado do edifício, à época devoluto:

nesta residência que hoje apenas serve para morcegos e corujas, ou para abrigo de algum cabreiro que por aí passe com o seu rebanho cabeludo.

James Bulwer publicou, em 1828, uma litografia colorida com a estrutura do palacete ainda íntegra que intitulou: Monserrat – A former residence of Mr. Beckford’s, and the hils above Colares. Continuando a percorrer as fontes epocais, sobretudo iconográficas evidencia-se, o estado de abandono de Monserrate, podendo constatar-se que o colapso estrutural, sobretudo, ao nível das coberturas, deverá ter ocorrido por volta de 1840, conforme gravura de Célestine Brelaz e de um óleo de Hoffman, datado de 1848.

 

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Bibliografia geral

 

BAILLIE, Marianne – Lisboa nos anos de 1821, 1822 e 1823 [Introdução: Albano Nogueira]. Lisboa.

BYRON, Lord (2013) – Childe Harold’s Pilgrimage [in www.gutenberg.org].

COSTA, Francisco (1985) – História da Quinta e Palácio de Monserrate. Sintra: Câmara Municipal de Sintra.

COUTINHO, Glória Azevedo (2008) – Monserrate: Uma Nova História. Lisboa: Livros Horizonte.

LUCKHURST, Gerald (2011) – «Gerard De Visme and the introduction of the english landscape garden to Portugal (1782-1793)», in Revista de Estudos Anglo-Portugueses, n.º 20. Fundação para a Ciência e Tecnologia/Centre for English, Translation and Anglo-Portuguese Studies, pp. 127-160.

NETO, Maria João (2015) – Monserrate. A casa romântica de uma família inglesa. Casal de Cambra: Caleidoscópio.

 

 

 

 

Legendas das figuras:

  1. Gerard De Visme, retrato em miniatura, c. 1794 (Carnegie Museum of Art)
  2. Gravura de Monserrate I, 1793, de Wells sobre desenho de Baker (Arquivo Municipal de Sintra
  3. Gravura de Monserrate I, 1793, de Wells sobre desenho de Baker (Arquivo Municipal de Sintra
  4. Retrato de William Beckford, da autoria de Joshua Reynolds, 1782 (National Portrait Gallery)
  5. Castelinho neogótico de De Visme já sem cobertura, óleo de Hoffman, 1848 (Colecção de Arte da Câmara Municipal de Sintra)